Lá fora o dia tinha amanhecido cinzento. O silêncio que enchia o quarto só era quebrado pelo som da chuva a bater no vidro, um som constante, ritmado, que tornava o silêncio num reconforto escondido debaixo das cobertas. Dormíamos. Da cadeira pendia o vestido de lã que ela usara na noite anterior, pelo chão estavam derrotadas as meias de seda preta que antes lhe tinham prendido as coxas. O espelho junto ao armário reflectia o sono dos justos, dormíamos e lá fora o dia tinha amanhecido cinzento.
Acordei e levantei-me da cama, com algum medo de te acordar com o ranger do colchão. Abri a janela para sentir as pequenas gotas na face. No entanto, fechei cuidadosamente os estores, deixando aquela luminusidade cinzenta entrar pelas pequenas frestas e fazer desenhos no teu corpo. Sempre imaginei a intimidade de um quarto assim um misto de sensações que nos ligam um ao outro, sem precisar que estejas acordada.
Da cadeira peguei no vestido e levei-o ao nariz, respirei fundo e o teu cheiro doce encheu-me o peito, gostava de te recordar nele, de usar estes pequenos pormenores para me encherem o peito. Virei a cadeira sem fazer barulho ainda zelando pelos teus sonhos e sentei-me nela. Percorri-te com o olhar apaixonado que me tinhas conquistado e mais uma vez demorei-me em todos esses pormenores e admirei as tuas formas e os desenhos no teu corpo, serenado pelo sono suave em que estavas mergulhada.
Soltaste um suspiro e desenrolaste-te um pouco dos lençois. As tuas costas, que aprendi a admirar no escuro e no silencio baralham-me os sentidos. Consigo tactear-te pela espinha abaixo, mesmo estando a 3 metros de distância. É óptimo, não preciso de te acordar e desperto todos os meus sentidos na tua direcção. Apoio os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos e espero, com olhos de criança que acordes. Não quero estragar o teu sonho, mas mal posso esperar para que tenhas um olho semicerrado, como sempre fazes e me dês um sorriso matinal com uma luminosidade cinzenta desenhada no lábio.
Mas tu continuavas a dormir, quietinha, tão exposta, tão deliciosamente imaculada naquela mistura sensual que eram o teu corpo e os lençóis. Gostava de te ter assim, num silêncio de um quarto e numa cumplicidade que eu sabia ser só nossa e confesso que era quase um prazer culpado despertar assim todos os meus sentidos na tua direcção ao ponto de quase te cobrir de beijos e dizer-te tudo o que provocas assim, tão inocentemente em mim.
O teu lábio moveu-se. O meu dia vai começar...

1 comment:
Adorei=)
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