Imaginou-o antes num comboio dos antigos, daqueles a vapor, que demoravam uma eternidade a percorrer meia dúzia de quilómetros que ainda assim eram a maneira mais fácil e rápida de ir a qualquer lado. Rapidamente o colocou no vagão-restaurante, apreciando um Porto enquanto lia o jornal, indiferente aos contornos da serra que o comboio ia desenhando com extrema dificuldade. O seu corpo acompanhava o ritmo compassado do comboio, mas os seus olhos continuavam fixos no jornal.
O jornal tinha a data de 21 de Abril de 1893 e falava de um assaltante de bancos que ninguém conseguia reconhecer porque se disfarçava de maneira diferente a cada assalto, mantendo apenas um padrão nos assaltos com um pedaço de pano axadrezado. Já a Scotland Yard o perseguia ŕ muito, mas nunca saberiam onde iria atacar a seguir. O homem do óculo passou a mão pelo bigode e parou, por instantes, já que o escritor precisou de encher o copo de whisky e se levantou da secretária.
Voltou a sentar-se, deu um bom trago no whisky e fechou os olhos, respirando o fumo do comboio que entrava pela janela. O homem do óculo fez o mesmo e pediu ao empregado que fechasse a janela. Retomou a sua leitura, fascinado com a vida daquele homem que enganava e trapaceava sem ainda ter sido descoberto. Sempre tinha vivido uma vida sem emoção. Havia nascido numa casa de boas famílias, a mãe morrera cedo com tuberculose, o pai nunca tinha conseguido ultrapassar essa perda, nem mesmo o filho lhe dava alegria, por isso tinha-o mandado para o seminário. Lá fizera alguns amigos mas, assim que saiu de lá para seguir direito, perdeu-os. Na universidade sentia-se como um peixe fora de água. Passava os dias fechado, evitando a vida boémia daqueles que o rodeavam.
Evitando os "demónios" de tudo o que rodeava aquela vida impura, como lhe tinha sido ensinado no seminário. Apaixonou-se lá, daquelas paixões arrebatadoras que não o deixavam respirar descansado que lhe apertavam o peito e que o faziam hesitar a cada passo. Ela, bela, divinal, pura, era angelical demais para que ele poder aproximar-se. Pediu a Deus ajuda, não sabia o que fazer e a dor no peito não o deixava comer. Revoltou-se, pediu a outros deuses, todos os que conhecia. Nada fazia aquela dor passar, nem ele conseguia aproximar-se sequer daquela pureza, estava conspurcado demais pelo mundo para lhe tocar. Mas se nem a fé ao(s) Senhor(es) o conseguia limpar, o que poderia fazer?
Resolveu conhecer o corpo da mulher. Surpreendendo os velhos colegas de turma, certa noite resolveu juntar-se a eles. foi assim que seguiu um caminho sem volta. não mais se sentia digno de cultivar o amor por tão digna dama, por aquele anjo com que os céus o tinham presenteado, não lhe restava outra saída senão sair dali, ela nunca saberia do seu amor indigno e talvez assim a sua consciência pudesse encontrar alguma paz. Apanhou o primeiro comboio, não quis sequer olhar para trás, tinha traído de maneira atroz o que sentira... no entanto, ali estava ele, sentado no vagão-restaurante, admirando a vida dum homem que não sentia culpa.
Quis rasgar tudo, a roupa, os panos das mesas e os papeis de parede do vagão restaurante, tornar-se ele num fora-da-lei. Era nisso que se tinha tornado, afinal, dentro de si. Sentia que toda a sua educação tinha sido uma farsa, mas que agora regia as suas acções. E se encontrasse o homem, neste vagão, ele chegasse ŕ sua beira e lhe sussurrasse: "esse de quem falam no jornal, sou eu. queres juntar-te a mim? Teremos fama e glória, ninguém nos apanhará" enquanto lhe passava um pedaço de pano axadrezado para que ele o agarrasse."Seremos os diabos no mundo, mil-faces, nenhuma verdadeira, nem a nossa própria" disse a si próprio. O escritor repetiu esta frase, "Seremos os diabos no mundo...mil-faces...nenhuma verdadeira, nem a nossa própria".
Sacudiu a cabeça tentando afastar a ideia de que era o homem do óculo quem afinal escrevia a sua vida. O homem do óculo sacudiu a cabeça e bebeu o Porto dum só gole. Levantou os olhos para a sala tentando distrair-se. Havia pouca gente no vagão, um homem um pouco mais velho do que ele que bebia uma água-ardente, uma mulher gorda, muito feia que molhava o dedo na língua para de seguida o esfregar na cara do filho, um miúdo franzino, com ar de subnutrido, ao contrário da mãe. Olhou por cima do ombro e ao fundo ao canto viu uma mulher, a pele branca, os lábios rosados, o olhos estavam escondidos pela renda do chapéu. Vestia dum vermelho escuro, como o Porto que acabara de escorregar pela sua garganta.
Desejou que fosse ela, em vez do Porto, desejou-a ardentemente, tanto que a mulher feia teria de tapar a vista do filho subnutrido só pelo olhar de desejo que ele lançava. Talvez o seu desejo anterior estivesse a ser realizado, o diabo do desejo crescia em si. Esta era muito diferente do anjo que tinha deixado para trás, atrás das montanhas. Aproximou-se e pediu para se sentar, não sem antes encher o copo de Porto e deixar o escritor ir buscar mais um whisky, que via neste texto uma longa noite ao sabor do seu Logans.O escritor voltou, sentou-se e apresentou-se à mulher, bebendo um gole de Porto.
A voz dela soou como veludo envolvendo todo o seu corpo, provocando um arrepio dos pés à cabeça, imaginou as palavras como sussurros ao seu ouvido. Tentando recuperar o senso da realidade, ofereceu-lhe um licor, surpreendentemente ela inclinou-se para a frente deixando antever o colo nu e disse que queria o mesmo que ele. Pouco depois o cálice estava na mesa.
Dois dedos de conversa e ficou a saber que viajava ao encontro do marido, um homem de negócios que andava constantemente dum lado para o outro, ela tinha ficado em Lisboa desta última vez, mas uma carta do marido tinha-a arrancado às soirées que dava constantemente na sua casa. Falou-lhe de como tinha já viajado grande parte da Europa, das pessoas importantes que tinha conhecido... as palavras escorregavam-lhe gentilmente pela língua, os seus lábios articulando as palavras eram um mundo, aquela mulher cativava-o, não era em nada igual ao anjo que outrora tinha devotado todo o seu coração cuja boca só sabia preces e palavras gentis, que só sabia a simplicidade duma vida direita, regrada.. esta mulher diante dele sabia como as coisas funcionavam, sabia o mundo e isso excitava-o, atirava-o de novo para o desejo de experimentar a vida, desafiar as regras, deixar o diabo conduzi-lo um pouco.
O escritor queria aqui as palavras exactas para descrever toda a intensidade daquele encontro, parecia-lhe que não tinham sido ainda encontradas as palavras para o descrever. Um gole de logans, coça a cabeça, desliga algumas das luzes, o ambiente estava luminoso demais para um encontro tão cúmplice, também no vagão as luzes diminuem, o sol escondeu-se, entre as montanhas que atrás ficaram e as luzes dos candeeiros a óleo começaram a ser acesas, o cheiro paira no ar e o inalar deste só desregula mais a respiração da personagem, o carregar da caneta no papel.
Com um sorriso, o primeiro que ela lhe dava sinceramente, perguntou-lhe divertido se a acompanhava no jantar. Surpreendido, principalmente pela falta de tacto que tinha para aquelas situações, deixou escapar um olhar de espanto, mas depressa o recapturou e lhe devolveu o sorriso, encantado com tamanha possibilidade. Ela levantou-se, estava na hora de ir trocar de roupa e deixar os empregados preparar as mesas para o jantar. Despediu-se com um beijo nas costas das mãos dela, cobertas por uma luva de renda fina e um breve "até já", deixou-se ficar ainda uns momentos abandonado nos seus pensamentos. Só conseguia pensar nas últimas horas, desde o momento em que tinha começado a ler a notícia dum homem que andava a monte e em que desejara ter mil faces, ao momento em que o diabo o tinha tentado, sacudindo-lhe os sentidos, mais do que o corpo era sacudido pelos movimentos do comboio. Levantou-se e foi-se trocar, não havia tempo a perder.
Chegou ao seu compartimento e tirou rapidamente da sua mala, feita a pressa o seu melhor fato. De seguida, pegou religiosamente na sua água-de-colónia (ehehe) e pôs duas gotas no colarinho da camisa, não deveria abusar, ela era esperta demais. Vestiu-se e seguiu, rapidamente para o vagão-restaurante, querendo estar lá para a receber quando chegasse. Ela chegou, trazendo um vestido longo, preto, liso que lhe realçava os lábios grandes e rosados e uns pequenos brincos, de rubi diria ele. Estava carnalmente divina, o demónio que o enrolava. Ela chegou, trazendo um vestido longo, preto, liso que lhe realçava os lábios grandes e rosados e uns pequenos brincos, de rubi diria ele. Estava carnalmente divina, o demónio que o enrolava.
Ele levantou-se da mesa mais isolada que já tinha escolhido enquanto a esperava, mas não sem vacilar um pouco, sentia-se embriagado por aquela visão. Ela, talvez ciente do efeito que causara sorriu-lhe acenando da porta e sem nunca tirar os olhos dos seus, dirigiu-se à mesa e sentou-se. Não trocaram uma única palavra, ela estava a testá-lo, queria ver quanto tempo ele se demoraria nessa contemplação, queria certificar-se que ele descobria cada pormenor da dedicação com que ela se tinha arranjado para aquele jantar meio furtivo, afinal era uma mulher casada.A mente dele deixou-se apanhar por aquela gentileza que ela lhe fazia ao permanecer-se em silêncio deixando-se ser admirada e percorreu-a em cada detalhe, deixou-se ir mais longe, imaginou mais do que deixavam imaginar os cabelos perfeitamente alinhados, o que poderia encontrar mais abaixo da linha do decote, desejou-a, desejou-a ainda com mais intensidade e não sentiu culpa, algo lhe dizia que não havia pecado em render-se àquela tentação.
Ela adorava cada olhar, cada piscar de olhos com uma intensidade de desejo a subir a passos largos, já ŕ muito que sabia como o fazer, mas queria jogá-lo só mais um pouco. "Então, o gato comeu-lhe a língua, meu caro? Ou estou assim tão extraordinariamente bela?"
"A segunda" respondeu ele automaticamente, como se fosse a marioneta dela que dizia exactamente as palavras que ela quisesse. Apercebendo-se, tossiu e endireitou-se na cadeira. "Está com fome? O que deseja?".
"Tenho algum apetite sim, mas vou comer pouco." disse ela, num tom sussurrante. O jantar continuou sempre com um teor sensual e provocador.
Ele também não conseguiu comer muito, sorvia cada gesto e cada olhar, cada movimento delicado, toda a sensualidade que ela emanava... A ela agradava-lhe aquele homem ingénuo e inexperiente que se maravilhava com tudo o que ela lhe dizia, ria-se muito, estava divertida, gostava de o sentir irremediavelmente envolvido naquele jogo de sedução. "Devíamos pedir uma garrafa de champanhe, hoje apetece-me celebrar este nosso encontro fortuito! Nem imagina como seria maçador continuar uma viagem tão longa sem uma companhia tão boa como a sua, ainda a terminamos como grandes amigos, talvez..." deixou a frase suspensa propositadamente, gostava de imaginar que ele também ficaria suspenso, alimentando uma esperança qualquer. Não respondeu, fez apenas sinal ao empregado e quando este se aproximou pediu-lhe uma garrafa do melhor champagne que havia a bordo. Este chegou pouco depois com uma garrafa gelada e duas taças, encheu os copos e retirou-se.
"Talvez como mais que isso?" perguntou ele num tom tremido, depois de muito pensar. Bebeu o champanhe, tentando "arrefecer-se".
"Quem sabe, meu caro, não quer ter esta conversa num sitio mais privado?" sugeriu ela numa melodia encantadora. Seguiu-a a medo até ao seu quarto e teve aí tudo o que de proibido havia no seu mundo, num jeito quente e intenso, entre garrafas de champanhe o movimento do comboio. Acordou sobressaltado com o bater da porta.
"Abra senhor, chegámos ao nosso destino!" Olhou em redor procurando a mulher ardente com quem tinha passado a melhor noite da sua vida, mas ela já ali não estava.Apercebeu-se que as suas coisas também tinham desaparecido, até a sua roupa, pendurado na cadeira encontrou apenas um lenço.
A luz entrava pela janela e incidia sobre o copo de logans esquecido em cima da mesa, no papel projectava o padrão em xadrez do copo e do lenço.


2 comments:
Giro..*
Adorei...
luna *******
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