Friday, June 08, 2007

Ecos de Silêncio


Entrou no carro, ajeitou o banco, o espelho, colocou o cinto, deu à chave. Desligou o carro. Ligou o rádio. Recostou o banco. Endireitou o banco. deixou cair os braços sobre o volante e encostou a cabeça, era só mais um dia mau.
Ouviu a porta do lado do pendura bater. Nem precisou olhar, sabia que era ela quem ali estava, sabia que tinha aquele feitiozinho de não aturar merdas e de querer levar sempre tudo até ao final, até às últimas consequências, até às fracturas expostas.. até às cicatrizes. Como ele a odiava nesses momentos, como ele gostava dela nesses momentos.
Ela entrou no carro, mas estava calada... o silêncio estava a incomodá-lo mais do que as palavras que ela já tinha repetido tantas vezes e que tantas outras vezes ecoavam na sua razão... mas não ousou levantar os olhos do volante. O rádio tocava baixinho como que à espera que ela falasse.
Queria pôr a música bem alto, que o John Coltrane lhe estoirasse a cabeça, porque ela o fazia sentir vulnerável, só com aquele olhar que partia a loiça toda. Mas nem o John Coltrane o ia ajudar agora, nem a merda da Orquestra Sinfónica de Berlim o safava desta. Ela ia explodir e não ia ser nada bonito...um seco "Então, vamos lá..." soou-lhe aos tímpanos,"mas vamos onde?".
Ele bem sabia o que ela queria, já lho tinha tentado dizer tantas vezes, já tinha pensado em tantos discursos, quase que sabia de cor todos os sinónimos de todas as palavras que iam ser precisas naquele momento, mas faltava-lhe a força.. a mesma que lhe faltava naquela pergunta para a qual ele conhecia tão bem a resposta.
O tom que ela imprimia na voz não ajudava. Nunca ajudou. Ele queria que ela gritasse, que fosse tal e qual as outras todas com quem ele tinha estado, que fizesse um escândalo, que fosse buscar cicatrizes doutras guerras e tentasse lutar com as armas de ferro já gasto, mas não, ela era assim, não aturava merdas e falava sempre com aquele tom de quem convida a melhor amiga para ir lá a casa tomar um chá. Uma frieza racional na voz que só se rebelava e dava espaço a outro tom quando ele a sentia entregue, quando estavam presos nas pernas e nos braços um do outro, acontecia também quando ela estava distraída e o tom da sua voz era o de menina alegre. Aquele era o tom que ela usava para lhe mostrar que só queria dele uma resposta para lhe dar uma certeza, para lhe pôr a um palmo do nariz um espelho enquanto afirmava com tanta certeza que ela nunca se tinha enganado e ele era exactamente o tipo de pessoa que ela sempre esperou que ele não fosse.

"Que queres que diga?! que não consigo viver comigo por estar assim, mas que tudo me aponta de volta para aqui, onde não sou eu? Sim, és a senhora da verdade! É isso que te faz feliz? Então sê feliz, eu vivo nesta mistura de texturas. e então? será que sou eu agora a dizer-te isto?...Não tens o direito, não tens mesmo! Eu não me posso expôr assim e tu só queres brincar com esta parte de mim, ver os limites...pois parabéns, são estes!"
Ela olhou-o nos olhos, não explodia como ele, a bomba dela continuava em contagem decrescente, ou talvez se consumisse doutra maneira, talvez fosse mais como um veneno que se alastra a todas as células, que percorre todas as veias em silêncio e que só se denuncia pelo olhar. Ela olhou-o nos olhos, estava desiludida, sentia que ele não entendia nada, que nunca tinha entendido... ou talvez fosse ela que nunca o tivesse percebido.
"Diz-me do que precisas, de quantas voltas ainda precisas de dar para perceberes que às voltas estamos sempre no mesmo sítio. Não quero ser a senhora da verdade, até porque verdades há muitas. O que me faz feliz são tantas coisas e coisa nenhuma, o que me faz feliz és tu quando sabes exactamente o que queres quando o queres, quando fazes casa dessa mistura de texturas em que pensas sempre que te afogas. Não quero a verdade, não aquela de que sou senhora que é a minha, tinha esperança que me pudesses mostrar a tua, talvez tenha sido aí que me enganei, ou se calhar tentaste mostrar-ma e eu não fui capaz de a ver, Lamento. E lamento esta impotência toda. E lamento que julgues que isto para mim é só um jogo ou uma brincadeira de crianças, em que andamos constantemente a fazer de conta e a relembrar como era quando "o rei manda". Não vou negar que gosto de exigir das pessoas o mais, de testar limites, que não gosto quando te sinto entre o comando e a total ausência do mesmo, quando andas na corda bamba a escolher para que lado cais, qual vais deixar assumir o controlo. Não me dês os parabéns, não os mereço, sinto que não consegui nada dos teus limites... já chega, estou cansada, leva-me a casa. "
"Espera, agora eu. A minha verdade? A minha verdade nem minha é, e toda a mentira que a rodeia é capaz de ser mais verdadeira. A certeza tenho-a quando estamos bem, quando tu estás bem, e nessas alturas, brincar é divino, mas estes jogos mentais destroem-me, desconstroem-me e não há certezas que eu possa ter assim." respirou fundo..."lembras-te de gostar do silêncio? em que so ficavamos parados a olhar para o sitio que tínhamos definido anteriormente, ficámos tanto tempo a olhar para a caneca, uma vez, acho que a sei de cor quando fecho os olhos"...falava mais pausadamente, tentava acalmar-se com a velha terapia da memória..."eu estou com a cabeça a 1000, só preciso de respirar". Tirou o cinto à pressa e abriu a porta, encostou-se ao carro com a cabeça entre as mãos.
Ela ficou parada, olhava o vazio ou a caneca. Quantas histórias um objecto como aquele podia contar, nas mãos deles tinha sido poço de desejos. Voltou ao sofá e àquela noite em que tinham ficado em casa, ele estava sentado e ela deitava a cabeça no seu colo, dentro da caneca havia chocolate quente. Ela gostava de momentos assim, os pequeninos nada que a vida lhe dava, era assim que aprendia a ser feliz. Nessa vez o filme tinha acabado e ele tinha desligado a televisão, depois levantou-lhe a camisa de dormir e pousou-lhe a caneca por cima do umbigo, aquilo fê-la rir e a caneca abanou, riram os dois, para depois ficarem em silêncio a olharem-se e a deixarem que um desejo lhes tomasse o corpo, voltaram à caneca e ficaram a construir mundos em torno dela, para depois a esquecerem e contruírem mundos em torno deles. Sentiu os olhos a ficarem húmidos e engoliu o choro, tinha saudades deles, de momentos assim.. onde é que tinham errado? o que tinha ficado para trás? Quando é que uma caneca passou a ser só mais uma caneca?!... Ele estava lá fora e o silêncio deles já não era confortável, pesava, pesava como todas as palavras que ele dizia. Baixou a cabeça, olhou as mãos fechadas sobre o banco onde ele tinha estado sentado. Hesitou entre chamá-lo ou sair. Saiu, os medos são assim, enfrentam-se, não respondem a nomes. Rodeou o carro e colocou-se em frente dele. Não sabia bem o que fazer, o que dizer, se devia sequer estar ali, estava cansada. Ficou assim uns momentos, lembrou-se dele na corda bamba, sentiu-se nela. "Ouve..." falou por fim " Talvez as coisas não tenham dado exactamente como as tínhamos idealizado, mas é sempre assim não é? Não sei o que pensas, mas eu não estou aqui para te julgar, não estou aqui para te condenar, estou talvez porque preciso de estar, porque a única saída que encontrei foi esta, porque achei que havia algo recuperável, algo que ainda valesse a pena... sabia à partida que isto nunca seria fácil, não poderia sê-lo, não somos fáceis, mas de resto nada o é, nem imaginas a complicação que têm as coisas simples...seja como fôr, preciso que sejas, o que quiseres, mas que sejas.. as tuas crises também me afectam e é uma instabilidade que eu não posso aguentar.. julguei-me mais forte, mas também sou demasiado instável... talvez seja altura de partir, vamos ser só, antes que as coisas estejam irremediavelmente perdidas."
Tinha falado com o mesmo tom, mas notava-se agora como a voz lhe tremia e ela que sempre detestara dar a parte fraca... mas se havia alguém que era capaz de a deixar vulnerável era ele, ao mesmo tempo que a fazia sentir-se em casa... olhou-o, reparou nele que já não escondia a cara entre as mãos e lá estava ela, a veia a pulsar na testa.. como já tinham rido e sido felizes à conta dela.. à conta dos momentos a dois que ela proporcionara sem querer, assim à laia de desculpa para se tocarem.

Ele olhou-a e engoliu em seco, "dá-me a mão, deixa-me ficar a olhar-te só, como a caneca, faz isso, vá lá...és bem mais complicada que a caneca... mas os teus olhos não me dizem isso, e se somos os dois vulneráveis assim, não haverá alguma força no meio? eu sei que sou assim, que tenho dias assim e noites assim, mas eu e tu não somos só estas discussões, somos silêncio e veias e canecas e se há mais complicado que isto agora, é uma dificuldade...bolas, como é estranho estar a falar assim agora. eu sinto que não sou eu agora, porque nunca me defino, porque só quando olhamos assim, fora do mundo, consigo ser certo nas palavras e mais claro nas ideias, vamos tornar o mundo simples uma caneca de cada vez, uma veia de cada vez, nós em pleno , um toque de cada vez, vamos conquistar o nosso silêncio e ficar assim, extasiados pelas formas já decoradas. vá lá, dá-me a mão..."
Estendeu a mão que latejava também, desta vez com toda a raiva extinta e com o nervosismo de se expor, curiosamente não da mesma forma que antes, desta vez, esperando pelo brilho nos olhos dela, como aceitação.
Ela olhou a mão dele, tinha-o ouvido, mas não estava certa de que resposta devia dar. Estava demasiado magoada, demasiado cansada, demasiado desiludida. Era sempre a mesma coisa, ele era sempre o mesmo, quantas mais vezes estava disposta a submeter-se àquilo?! quantas mais vezes era preciso encostá-lo à parede e dizer-lhe o que quer que fosse?! estava cansada de ser a má da fita, de ter de pôr as coisas a andar. Pensou por momentos no passo que era ele estar a expôr-se assim, imaginou a fragilidade dum momento daqueles dentro dele, da quantidade de porcelanas que o seu elefante estava a arriscar-se a partir.
Eram impagáveis todos os momentos que tinham passado juntos, todas as vezes que ele lhe tinha cravado os dentes e lutado consigo mesmo para não lhe arrancar um bocado, todas as vezes em que ela se tinha detido na porta do quarto a vê-lo dormir, todos os momentos em que ela lhe tinha beijado a nuca e deixado as mãos escorregarem-lhe pelo peito, todos os momentos em que ele depois de apagarem a luz lhe dava um beijo.
Eram impagáveis todas as lembranças, mesmos as más, mesmo todas aquelas discussões parvas, mesmo todas as birras e amuos. Ela olhou nos olhos e deixou cair uma lágrima. A mão dele continuava estendida. Ela sabia que se não a pegasse aquilo seria para ele o maior golpe, a maior desilusão, ele acreditava nela ainda... mas ela não saberia até quando e isso deixava-a insegura. Queria mudar tudo, queria voltar ao antes, queria conquistar todos os silêncios que os aguardavam, mas parecia-lhe impossível tornar o mundo simples.
Queria mexer-se e não conseguia. Queria agir e não era capaz. Caiu-lhe outra lágrima.

Congelou, as lágrimas que lhe caíam da face só podiam significar que ela nada podia fazer agora. Um turbilhão de memórias vieram-lhe aos olhos e ele, ainda congelado, mantinha a mão estendida, com um olhar centrado nela, mas que a atravessava, não de uma forma hostil, longe disso. Apenas não tinha reacção e a única coisa que lhe atravessava a mente era os lábios dela, e a segurança que estes lhe davam, adormecia neles, e esses sim, sabia-os de cor, cada vinco e cada rósea parte, depois de tantas vezes os observar enquanto ela dormia, com o luar a estender-se além das persianas e descansando ali, mesmo no centro dos lábios dela, e o centro do luar dele.
O impulso chegou, agarrou-a e abraçou-a, não aguentava vê-la assim, e culpava-se por todas as gotas que ela derramava agora. controlou, no entanto, o impulso de juntar os seus lábios à face salgada dela, e tê-la assim, chorando, já apertava tanto. "és-me muito" soltou.
Um choro descontrolado tomou conta dela. Sentiu-se exposta como nunca tinha estado, nunca ele a tinha visto tão nua como agora que a tinha a soluçar nos seus braços. E mais uma vez não se reconheceu por se entregar ao momento e chorou, deixou que todas as lágrimas se aninhassem na camisola dele. Era uma sensação de abrigo como nunca tinha conhecido. Ficaram assim por uns momentos, até ela se acalmar.
Desencostou-se e fixou-o bem, conhecia tão bem aqueles olhos, já tinha falado tantas vezes com eles, numa língua estranha que ela tinha aprendido com o tempo. os olhos dela estavam vermelhos de ter chorado, ele nunca lhos tinha visto assim, mas ainda assim ele achava neles brilho e mais do que isso, encontrava-se com ela, reconhecia-a, sabia-a. "Desculpa" disse ela ainda num soluço abafado fechou os olhos e beijou-o devagar, com o cuidado de quem diz uma prece. Afastou os seus lábios dos dele, pouco, só o suficiente para que os sons saíssem claros, só o suficiente para ser entendida por palavras, lida quase em braile pelos toques ocasionais dos lábios dela nos dele, e disse-lhe baixinho com aquele tom que ele sabia ser tão raro "és-me tanto".
O sorriso dele estendeu-se ao infinito e tudo á volta ficou mais brilhante, mais vivo, era por isto que ele acordava, e só estes momentos de angustia, que agora viviam tornavam claro que era isto. abraçou-a de novo, num abraço forte mas cuidado, sabendo da fragilidade do que tinha em mãos, "Talvez seja uma maneira de crescermos, sentirmos a ameaça de não nos termos. acho que estamos a ser bem-vindos ao mundo das resoluções". rapidamente o carro se tornou na cama que conheciam bem, e os toques, desta vez tão suaves como da primeira, traduziam o brilho no olhar de ambos. "Sabes, às vezes Adeio-te!" sussurrou-lhe ele enquanto os seus narizes se tocavam e os olhares se entrelaçavam...







Este texto foi escrito com uma pena da asa direita e uma pena da asa esquerda.

4 comments:

Ana Margarida Cinza said...

wou!...eu estava mesmo envolvida nisto caramba...bem mulher tu estás cada vez melhor..até eu já gritava para que ela lhe desse a mão e chorava por ele ser um tótó...e me contorcia porque não sabia se eles iam "fazer as pazes"..

acho que um dia também gostava de conhecer esse mundo das resoluções..

epá..gostei PORRA! :P

beijinho`*

João said...

fogo, estou a ser ostracizado...=/

Ana Margarida Cinza said...

oh...desculpa!..n li a frase abaixo da imagem..so mesmo CRAPULA!!

voces estao, de facto, os dois MUITO MELHORES..e esse entendimento a duas mãos é qualquer coisa!..

Beijinho*

L. Romudas said...

Bem, não costumo ler posts maiores que dois ou três parágrafos, mas neste caso abri uma excepção e não me arrependi nada. Neste caso e nos outros ali de cima. Gostei muito e sou da opinião da Gui: este entendimento a duas mãos (ou quatro?) é qualquer coisa. Muito talento, sim senhor. Há por aí gajos que se autoproclamam escritores e não fazem sequer metade do vocês apresentam.

Parabéns, parabéns e parabéns.
Sigo-vos com atenção...