Sunday, June 24, 2007

Atlântida




A noite estava fria apesar de já ser meio de Agosto. Lá em baixo ouvia-se o barulho das ondas a baterem de encontro ao paredão. Não era a primeira vez que visitava aquele lugar, na verdade, de há dois anos para cá que o visitava sempre que podia, sempre que precisava. A noite estava fria e não se via viv'alma. Era assim que gostava das ruas quando se sentia assim, vazias, sem gente, sem palavras sem sons, sem passos, sem vidas emprestadas. Gostava mais das ruas assim, silenciosas em adoração à lua, cheias duma vida própria que só é perceptível assim, no silêncio duma boa caminhada.
Gostava do facto de todos os candeeiros ali estarem fundidos, e da lua nova lhe permitir seguir as constelações e toda a história incompreendida do universo. Tirou as sandálias e enterrou os pés na zona da areia molhada, da que o mar tinha ainda à pouco agraciado mas do qual se ia afastando, gradualmente, quase matematicamente. Olhou para cima e deixou-se cair para trás, molhando a camisa branca. Sentiu um arrepio na espinha. Adorava o anonimato que tudo isto lhe trazia, sem pessoas a falarem-lhe aos ouvidos e a agitarem-se aos seus olhos.
Abriu os braços e enterrou as mãos na areia, fechou-as sentido os grãos fugindo-lhe por entre os dedos. Pensou que durante muito tempo sentira a sua vida daquela maneira, fugindo-lhe por entre os dedos... olhou o céu, as estrelas e pensou que pensar nisso naquele momento era um desperdício. Abriu de novo as mãos, desenterrou-as e sacudiu-as nas calças e deixou-as cair sobre o ventre liso. Era bom estar ali. Desejou poder fundir-se com tudo o que a rodeava... uma onda beijou-lhe os pés com água fria.
Sorriu ao pensar que o mar lhe concedia esse desejo, pois sentiu que com a água aos seus pés, também a areia se fundia com ela à medida que os seus pés se enterravam. Afinal, já nada havia de matemático nesta maré e isso agradava-a. Detestava a previsibilidade das ciências exactas que nos posicionavam segurinhos, nos nossos lugares, a ter 84,7% de hipóteses de sobreviver a mais um dia. Por isso vinha aqui, se virava para o mar e deixava que a natureza, e não as pessoas, lhe sussurrasse ao ouvido. Como conseguia o mar emanar tanto, sendo sempre o mesmo, tendo a rotina de ir e voltar, sempre?
Apeteceu-lhe desaparecer nele, deixar que ele a penetra-se por cada poro e a transformasse em espuma na crista duma onda. Apeteceu-lhe descobrir a Atlântida e todos os tesouros, todos os navios afundados. Era o mar lembrava-lhe a ela mesma. Cidades de sentidos perdidos, tesouros que nunca dera a ninguém, escondidos e guardados pelas águas profundas, pessoas que passaram por ela e se afundaram, umas tão dentro de si que continuam misturadas consigo mesma, outras que se afundaram e se afogaram, irremediavelmente. Despiu-se.
Entrou impetuosamente na água e sentiu na pela o calafrio do mergulho, enquanto a espuma da maré lhe passava entre os negros e longos cabelos. Pensou que para acordar todos os sentimentos que ainda estavam afundados em si, teria de mergulhar profundamente, e era isso exactamente que tentava agora: mergulhar em si mesmo ao mesmo tempo que a natureza a mergulhava no seu esplendor, na sua força e magnitude. Ouviu uma vez alguém dizer que a intensidade das sensações aumentava a medida que o oxigénio se dissipava no organismo, e tudo o que ela queria agora alcançar era demasiado profundo para ser apenas acariciado. Teria de nadar mais longe e mergulhar mais fundo, para que a pressão fizesse com que a lucidez lhe surgisse na mente. Alcançar a sua Atlântida.

3 comments:

Anonymous said...

estas vossas sinfonias a dois teclados são um cantinho de harmonia na poluição blogosférica...

keep flyin´!!

Ana Margarida Cinza said...

...eu gosto das ciências exactas..fazem de mim o que sou...

se ela gostasse das ciências exactas não se afundaria com o mar...

mas afinal..todos nós nos afundamos num mar qualquer, de alguém, ou deixamos que alguém se afogue, desapareça e resista dentro de nós..ou simplesmente rejeitamos alguém, enviando-o sempre para a nossa beira-mar, sem deixar penetrar fundo..

ai divagações, divagações..é isto que tu me dás depois do isolamento :P

estás cada vez melhor!

beijinho*

Gaius said...

"Como conseguia o mar emanar tanto, sendo sempre o mesmo, tendo a rotina de ir e voltar, sempre?"

Todo Sísifo tem dentro de si um Prometeu! =P

P.S: Gosto muito do texto!