Sentou-se no degrau de pedra e olhou o horizonte. O sol ia alto, devia ser quase uma da tarde. Já não demorava. De certeza que já não demorava, pensava para consigo.
Desceu o olhar até o portão, grande de ferro. Outrora tinha sido o mais majestoso da região, hoje era só um pedaço de tempo enferrujado. Imaginou quantas pessoas já o teriam atravessado, para cá e para lá, tantas que já lhes devia ter perdido a conta.
O sol começava agora queimar-lhe o alto da cabeça, levantou-se relutante, demorou mais uma vez o olhar no horizonte. "Já não demora" murmurou abandonando a soleira da porta.
Entrou em casa, que como sempre nesta altura do ano, estava mais fresca. Como fazia sempre nestas alturas, encostou a porta atrás de si e deitou-se no no chão a um canto, deixando que o cal da parede lhe arrefece-se suavemente as costas enquanto encostava as palmas das mãos ao soalho, também fresco.
Desde criança que passava horas a espreguiçar-se neste soalho quando chegava o verão. Tinha aprendido a refrescar-se num lugar onde o calor abundava e o divertimento, nem por isso.
Perdia-se assim, em pensamentos.
Tinha saudades do tempo em que as coisas eram assim, simples. Em que passava as tardes no chão frio procurando descobrir as histórias mais fantásticas para matar o tempo.
"Vai brincar! Subir às árvores! Correr no campo!" Diziam-lhe com frequência quando era criança, mas do que mais gostava era de estar assim, de olhos fechados a fugir daquele lugar, que compreendia agora ser o seu.
Nunca fora de grandes aventuras, de subir às árvores ou de grandes brincadeiras. Havia o regato... gostava de ir lá sentir a água a acariciar-lhe os pés, de atirar pedrinhas e ver até onde iam até se perderem no fundo. De molhar a cara e voltá-la para o sol num sorriso aberto até cada gota se evaporar. Porém rapidamente sentia demasiado calor para ficar lá fora e voltava ao chão frio da casa e às memórias de faz-de-conta.
Era estranho voltar ali, neste momento. Tantas memórias, quase todas de uma infância feliz no seu "mundo rasteiro". Mas não parecia uma boa altura para isso.
Pensou se Freud teria uma explicação para isto. Não era uma boa altura para se perder na sua infância, tanto que já não devia demorar, e não se podia apresentar assim às pessoas, a espreguiçar-se no chão, acima de tudo, não hoje.
Levantou-se e "recompôs-se", sacudindo a camisa. Ainda não sabia bem o que fazer aquilo nos dias seguintes, mas iria ter tempo para pensar. A situação não afectava tanto quanto tinha pensado antes, era uma espécie de aceitação de algo que teria de acontecer.
Na verdade, nunca tinha pensado voltar ali. Quando partiu jurou, era para nunca mais voltar. Era para deixar para trás as paredes brancas de cal, o portão velho, o degrau da porta, o soalho fresco, o regato inconstante, as histórias, as memórias.
Era para nunca mais voltar ali, nunca mais ser, nunca mais... nunca mais... Nunca mais tinha sido afinal cedo demais. Tinha-se transformado em outra pessoa quando há 15 anos atrás tinha atravessado aquele portão. Tinha deixado o ventre da casa que era abrigo e decidido experimentar o mundo. Tinha deixado de fugir e só podia fazê-lo fugindo da vida que sempre levara. Mas já não valia a pena pensar nisso.
A vida tinha-lhe ensinado - O que lá vai, lá vai!. "Já não demora e o que lá vai, lá vai!" soltou num suspiro sonoro que preencheu o espaço vazio.
Ficou algum tempo a olhar em redor, como que à espera de uma resposta, mas nada. Começou a caminhar em direcção à porta, de novo.
Ouviu-se então a buzina do velho Mercedes do seu tio. Não sabia bem se se tinha preparado para isto, mas no momento, tudo lhe parecia normal. Talvez ainda não tivesse caído na realidade. Abriu a porta da frente e o sol voltou a a iluminar-lhe o rosto, voltando a ter aquela sensação do calor como uma mão a acariciar-lhe as faces. Sorriu, talvez o fosse. Desceu os degraus e encaminhou-se para o portão. Ao abrir, voltou a ranger, desta vez mais grave que o normal, como que protestando a falta de uso. Pela sua parte, o portão tinha razão, não o tinha utilizado tanto quanto deveria.
O Tio abriu-lhe a porta. Olhou para a velha casa mais uma vez. Sim, tinha-se preparado bem para o funeral dos seus Pais.

1 comment:
Muito bonito.
Não sei porquê, faz-me lembrar a parte do Cal de José Luis Peixoto que já li.
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